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Carnaval amplia riscos para crianças e expõe falhas na proteção digital, diz presidente da ChildFund


Por Redação

12/02/2026  às  08:21:52 | | views 107


@agencia brasil - ABr

Para Maurício Cunha, aumento de denúncias no período de Carnaval revela vulnerabilidades estruturais; especialista defende menos exposição nas redes e maior responsabilização de famílias e poder público


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O carnaval, marcado por celebrações populares e grandes aglomerações, também expõe fragilidades na rede de proteção à infância no Brasil. A avaliação é do presidente da ChildFund Brasil, Maurício Cunha, pesquisador em políticas públicas para crianças e adolescentes.

 

Em entrevista, ele afirma que o período concentra aumento expressivo de denúncias de violações de direitos e chama atenção para a combinação de riscos presenciais e digitais — especialmente a superexposição nas redes sociais.

 

Dados do Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, registraram mais de 26 mil denúncias envolvendo crianças e adolescentes durante o carnaval de 2024, crescimento de 38% em relação ao ano anterior.

 

A seguir, os principais trechos da entrevista.

 

SEGNEWS - Os dados indicam que o carnaval é, de fato, um período mais perigoso para crianças e adolescentes?
Maurício Cunha - Sim. Os números mostram um aumento significativo de denúncias nesse período. Foram mais de 26 mil registros no carnaval do ano passado, com crescimento de 38% em relação ao ano anterior. Isso revela que as crianças ficam mais expostas a diferentes formas de violência quando há grandes eventos e circulação intensa de pessoas. Não se trata apenas de percepção social — há evidências concretas.

 

SEGNEWS - Que tipos de violações tendem a crescer nesse contexto?
Maurício Cunha - Observamos aumento de casos de exploração sexual, trabalho infantil e desaparecimento de crianças em meio a aglomerações. Também há um debate importante sobre erotização precoce, que configura violação de direitos conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O carnaval é um espaço cultural legítimo, mas a criança precisa ser preservada de conteúdos e situações inadequadas à sua faixa etária.

 

SEGNEWS - O senhor menciona também riscos no ambiente digital. Como eles se relacionam ao período festivo?
Maurício Cunha - Durante o carnaval, cresce a produção e o compartilhamento de imagens nas redes sociais. Muitas famílias publicam fotos e vídeos de crianças sem avaliar as consequências. Essas imagens podem ser capturadas, manipuladas e redistribuídas em redes criminosas. A exposição digital amplia a vulnerabilidade. Uma imagem publicada pode permanecer indefinidamente na internet.

 

SEGNEWS - Há evidências de que a violência online contra adolescentes é expressiva no Brasil?
Maurício Cunha - Sim. Pesquisa do ChildFund com mais de 8 mil adolescentes de 13 a 18 anos mostrou que 54% já sofreram algum tipo de violência sexual no ambiente digital. É um índice extremamente preocupante. Além disso, os adolescentes brasileiros passam, em média, quatro horas por dia nas redes sociais, e cerca de 30% permanecem conectados por mais de seis horas diárias. Quanto maior o tempo de exposição, maior o risco.

 

SEGNEWS - As famílias têm atuado de forma preventiva?
Maurício Cunha - Ainda de maneira insuficiente. Em levantamento com 9 mil adolescentes de todo o país, apenas 35% relataram algum tipo de supervisão parental no uso da internet. O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que a proteção é dever compartilhado entre família, sociedade e poder público. Isso inclui diálogo constante, uso de controles parentais e monitoramento adequado, sem violar a autonomia, mas garantindo segurança.

 

SEGNEWS - Há uma percepção comum de que os agressores são desconhecidos. Os dados confirmam essa ideia?
Maurício Cunha - Não. Precisamos romper com esse estereótipo. Mais de 85% das violações sexuais contra crianças são cometidas por alguém de confiança da vítima ou da família. Em cerca de 90% dos casos, os crimes ocorrem no ambiente doméstico. Isso mostra que o risco não está apenas na rua ou nos grandes eventos, mas também dentro de casa.

 

SEGNEWS - Que instrumentos de proteção estão disponíveis para a sociedade?
Maurício Cunha - O Disque 100 é uma ferramenta essencial. Funciona 24 horas por dia e não exige apresentação de provas — basta a suspeita. A denúncia é encaminhada às autoridades locais. Também houve avanço legislativo com o ECA Digital, que começa a ser implementado e deve fortalecer a proteção contra crimes virtuais. A omissão favorece o agressor. A denúncia inibe a ação criminosa.

 

SEGNEWS - O trabalho infantil também se intensifica no carnaval?
Maurício Cunha - Sim. O período amplia atividades informais e temporárias, e crianças acabam sendo exploradas por serem mão de obra mais barata. No Brasil, o trabalho é proibido antes dos 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14. Criança deve brincar, estudar e ser protegida. Qualquer flexibilização disso compromete o desenvolvimento físico e emocional.

 

SEGNEWS - Podemos imaginar o carnaval como um espaço de alegria e diversão para as crianças?
Maurício Cunha - O carnaval pode ser espaço de alegria e convivência. Mas isso só é possível quando os direitos da criança são prioridade.

 



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