Roubo de carga movimenta R$ 70 bilhões por ano e expõe fragilidades no combate ao crime


Por Redação

29/10/2026  às  16:00:28 | | views 85


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Especialistas apontam o papel dos receptadores, a expansão do comércio eletrônico e a dificuldade de atingir o patrimônio das organizações criminosas


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O roubo de cargas e a falsificação de produtos movimentam cerca de R$ 70 bilhões por ano no Brasil, segundo estimativa apresentada em seminário realizado na capital paulista. Para especialistas que participaram do encontro, o enfrentamento desse mercado ilegal depende não apenas da ação policial nas estradas, mas também de investigações capazes de chegar aos compradores das mercadorias e ao dinheiro que financia as quadrilhas.

 

O assunto foi discutido na manhã de 27 de outubro, durante seminário promovido pelo Centro Internacional de Cultura (CIC), no Hotel Vila Galé Paulista. O evento reuniu representantes do Judiciário, das forças de segurança e do setor privado para discutir formas de conter o roubo de cargas e a circulação de produtos falsificados.

 

Uma das principais preocupações levantadas pelos participantes foi a facilidade com que mercadorias roubadas podem voltar ao mercado. Com a expansão do comércio eletrônico, a venda desses produtos deixou de depender apenas de pontos físicos de revenda e passou a contar com canais que permitem alcançar consumidores em diferentes regiões.

 

Venda pela internet dificulta rastreamento

Diretor da Risk Veritas e especialista em gerenciamento de risco internacional, Alfredo Chaia afirmou que o problema não se restringe ao Brasil. Países como México e Estados Unidos, além de regiões da Europa e da Ásia, também enfrentam desvios de mercadorias e fraudes nas cadeias de abastecimento.

 

Segundo ele, a internet ampliou as possibilidades de comercialização de produtos roubados e falsificados. Mercadorias que antes eram vendidas em pontos conhecidos de revenda ilegal agora podem ser anunciadas em plataformas digitais, o que dificulta o rastreamento de sua origem.

 

O risco também varia conforme o porte da empresa envolvida. Pequenos e médios negócios podem sofrer prejuízos capazes de comprometer o caixa quando compram insumos de origem ilícita e acabam submetidos a sanções. Nas grandes companhias, além das perdas financeiras, há o risco de danos à reputação e de gastos com o recolhimento de produtos, sobretudo nos setores farmacêutico e de alimentos e bebidas.

 

Chaia também chamou a atenção para a vulnerabilidade do transporte rodoviário, responsável por mais de 60% do transporte de cargas no país, de acordo com os dados mencionados no encontro.

 

"Para reduzir os riscos, transportadoras e embarcadores recorrem a medidas como cabines blindadas, baús reforçados e esquemas especiais de segurança para cargas de maior valor", afirma Chaia ao reconhecer que ainda assim, o investimento em proteção não elimina as perdas provocadas por roubos e desvios.

 

O especialista observou que o seguro ajuda a cobrir prejuízos de maior proporção, mas não impede que ocorrências menores e recorrentes comprometam a rentabilidade das empresas. Por isso, defendeu que a segurança seja incorporada à rotina da operação logística, com procedimentos de prevenção e gestão de riscos.

 

Sem comprador, roubo perde rentabilidade

Já o desembargador Carlos Alberto Correia de Almeida, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), concentrou sua análise na estrutura das organizações criminosas e nas dificuldades do sistema de Justiça para enfrentá-las.

 

Ao comparar diferentes modelos de atuação, ele citou o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, associado historicamente ao controle territorial, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, cuja atuação também envolve atividades econômicas e redes de negócios ilícitos.

 

“O crime é organizado; o Estado é que é desorganizado”, afirmou o magistrado.

 

Para ele, um dos pontos centrais no combate ao roubo de cargas é a atuação dos receptadores, responsáveis por comprar ou dar destino às mercadorias roubadas. Sem compradores dispostos a absorver os produtos, a quadrilha perde parte importante da capacidade de obter lucro.

 

O mercado ilegal, segundo essa avaliação, não se sustenta apenas com quem aborda o caminhão ou desvia a carga. Depende também de uma rede que recebe, armazena e revende os produtos. Essa estrutura pode envolver mercadorias de alto valor, como painéis solares, ou itens de consumo cotidiano, como alimentos e bebidas.

 

Por isso, o desembargador defendeu que as investigações avancem sobre os negócios usados para escoar os produtos e movimentar os recursos obtidos com os crimes. "A identificação de empresas de fachada e o bloqueio de recursos financeiros devem ter papel importante nessa estratégia" afirmou Almeida.

 

O desembargador também questionou a ideia de que o aumento das penas, por si só, seja suficiente para reduzir esse tipo de crime. Na avaliação apresentada no seminário, a resposta depende da capacidade de investigar, responsabilizar os envolvidos e fazer com que as punições sejam efetivamente aplicadas.

 

Integração é desafio para as investigações

O delegado Aldo Galiano Júnior, da Seccional de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, abordou as dificuldades enfrentadas pela polícia no combate a quadrilhas especializadas e na investigação de crimes praticados em rotas rodoviárias.

 

A atuação desses grupos exige investigações que ultrapassem o local do roubo e acompanhem o caminho percorrido pela carga. Isso inclui identificar os responsáveis pelo armazenamento e pela revenda, além de reunir informações que ajudem a esclarecer a estrutura financeira das quadrilhas.

 

Durante o encontro, os participantes defenderam maior integração entre as forças de segurança, os órgãos de inteligência e as empresas. O compartilhamento de informações pode ajudar a identificar padrões, antecipar riscos e localizar os diferentes elos envolvidos na comercialização das mercadorias.

 

O seminário foi promovido pelo Centro Internacional de Cultura (CIC), com apoio da Comunidade de Juristas de Língua Portuguesa (CJLP) e do escritório Faria de Oliveira Advogados. A mediação ficou a cargo do advogado Nelson Faria de Oliveira.

 

A discussão apontou para uma mudança de foco no enfrentamento do problema: além de prender os responsáveis pelo roubo, é preciso dificultar a venda das mercadorias e atingir os recursos que tornam a atividade lucrativa.



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