Falta de ajuste nos gastos mantém dívida pública sob pressão
Por Redação
29/10/2026 às 07:42:22 | | views 77
Endividamento chegou a 82,9% do PIB em agosto, ante 71,7% em 2022; juros elevados ampliam a conta, enquanto economistas divergem sobre a necessidade de cortes no Orçamento
A dívida pública brasileira chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026, ante 71,7% em 2022, e coloca o ajuste das contas públicas entre os principais desafios do próximo governo. A deterioração do indicador reforça a cobrança do mercado financeiro por medidas de contenção das despesas, diante das dificuldades de estabilizar o endividamento sem comprometer a trajetória dos gastos públicos.
A discussão ganhou força com propostas de cortes que chegam a R$ 450 bilhões. Em artigo publicado recentemente, a revista Forbes, dos Estados Unidos, defendeu uma redução dessa magnitude para estabilizar a dívida brasileira, com base em estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado. Durante a campanha presidencial, a imprensa atribuiu ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) uma proposta de corte de R$ 250 bilhões. A iniciativa foi criticada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que a classificou como um possível “tesouraço” nos benefícios sociais.
Para economistas de orientação liberal e ortodoxa, a contenção das despesas é necessária para recuperar a confiança na política fiscal e criar condições para a redução dos juros. Já especialistas de linha heterodoxa e desenvolvimentista argumentam que o diagnóstico dá peso excessivo aos gastos primários — destinados ao funcionamento dos serviços públicos e ao pagamento de benefícios — e deixa em segundo plano o custo dos juros sobre a dívida.
A divergência ocorre em um momento de pressão crescente sobre o Orçamento. Nos 12 meses considerados, o setor público acumulou R$ 1,1 trilhão em despesas com juros, o equivalente a 8,86% do PIB, segundo dados do Banco Central (BC). Em 2026, os juros nominais foram o principal fator para o aumento de 4,2 pontos percentuais na relação entre dívida e PIB.
A taxa de juros real brasileira, de 8,45%, também está entre as mais altas do mundo, segundo levantamento da consultoria Moneyou. O custo do endividamento alimenta o argumento de economistas que defendem uma revisão da política monetária, enquanto o Banco Central aponta os desequilíbrios fiscais e os riscos inflacionários como fatores que limitam o espaço para reduzir a taxa básica.
Juros e dívida no centro da discussão
A professora do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Simone Deos considera que o crescimento da dívida não representa, por si só, um risco iminente de calote ou de descontrole inflacionário. Segundo ela, o fato de o endividamento ser denominado em reais diferencia a situação brasileira daquela de países que dependem de financiamento em moeda estrangeira.
O professor Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), também avalia que o nível atual da dívida não deve ser tratado como a principal preocupação econômica do país. Para ele, a análise precisa levar em conta a capacidade de arrecadação do Estado e as características do mercado de títulos públicos brasileiro.
Os dois economistas contestam a comparação entre as contas do governo e o orçamento de uma família, frequentemente utilizada no debate fiscal para defender que as despesas não podem superar as receitas. Um Estado, argumentam, dispõe de instrumentos de arrecadação e financiamento que não estão disponíveis a um consumidor comum.
Deos cita dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024 para mostrar que países como Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Canadá têm dívida pública em proporção do PIB superior à brasileira. A Índia apresenta um indicador próximo ao do Brasil.
A comparação, no entanto, não elimina as diferenças entre as economias nem resolve a questão da sustentabilidade da dívida. Além do volume do endividamento, a avaliação depende de fatores como o custo de financiamento, o prazo dos títulos, a capacidade de arrecadação e a trajetória das despesas públicas.
Para Deos, o principal problema está no peso crescente dos juros no orçamento. “O que está causando essa trajetória de aumento é o pagamento de juros”, afirma. Segundo a professora, a despesa transfere uma parcela cada vez maior da renda nacional para detentores de ativos financeiros, reduzindo o espaço para outras destinações dos recursos públicos.
Pressão por cortes divide economistas
Rodrigues avalia que a cobrança por um ajuste fiscal baseado na redução dos gastos primários contribui para manter os juros elevados. O professor argumenta que, ao condicionar a flexibilização monetária à obtenção de superávits primários, o Banco Central reforça a pressão por cortes no Orçamento, mesmo diante dos efeitos que essas medidas poderiam ter sobre as políticas sociais.
O economista também aponta os ganhos de instituições financeiras com os títulos públicos como um fator de interesse na manutenção de taxas elevadas. Na sua avaliação, há uma convergência de interesses entre parte do mercado financeiro e a política monetária restritiva. A afirmação é uma interpretação do professor sobre a dinâmica econômica, e não uma comprovação de coordenação entre instituições financeiras e o BC.
A autoridade monetária, por sua vez, sustenta que gastos primários superiores à arrecadação podem ampliar as pressões inflacionárias e dificultar a redução dos juros. A melhora do resultado fiscal, nessa perspectiva, contribui para diminuir os riscos econômicos e criar condições para uma trajetória mais favorável da dívida.
O impasse está em como produzir esse ajuste. Cortes expressivos podem atingir despesas obrigatórias, benefícios sociais e investimentos, enquanto a ausência de medidas de contenção deixa o governo mais exposto à evolução das receitas, ao custo da dívida e às condições de financiamento.
Alternativas passam por câmbio e qualidade do gasto
Deos defende uma revisão da política monetária e considera que a redução dos juros, combinada com medidas de atuação no mercado cambial, poderia contribuir para estabilizar a dívida. A professora cita as reservas internacionais brasileiras, de aproximadamente US$ 350 bilhões, entre os instrumentos disponíveis ao Banco Central para atuar sobre as condições econômicas.
A proposta contrasta com a avaliação de que a redução consistente dos juros depende, antes de tudo, de uma melhora do resultado primário. A eficácia de uma estratégia alternativa, porém, dependeria de sua capacidade de conter a inflação e preservar a confiança na moeda, além de reduzir o custo do endividamento.
A professora da Unicamp reconhece que a eficiência das despesas públicas precisa ser discutida, mas afirma que o ajuste não deve comprometer políticas sociais. Rodrigues, por sua vez, defende a ampliação dos investimentos públicos e o fortalecimento do orçamento social. Segundo ele, despesas com potencial de estimular a atividade econômica podem gerar renda, emprego e arrecadação adicional.
O efeito fiscal desses investimentos, contudo, depende da qualidade dos projetos e do retorno econômico obtido. A ampliação dos gastos não garante, por si só, receitas suficientes para compensar o desembolso inicial, assim como cortes lineares não asseguram ganhos de eficiência.
Com a dívida em trajetória de alta e os juros ainda pressionando as contas públicas, o próximo governo terá de conciliar duas frentes: conter o crescimento do endividamento e definir quais despesas podem ser revistas sem comprometer a prestação de serviços e a capacidade de investimento do Estado. A dificuldade de apresentar uma estratégia que contemple esses objetivos mantém a política fiscal no centro das incertezas sobre a economia brasileira.
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