Saúde mental e segurança digital desafiam a sociedade na era da inteligência artificial
Por Redação
24/10/2026 às 12:48:01 | | views 71
Especialistas reunidos no LIDE Wellness discutem os efeitos da hiperconectividade, os riscos do uso excessivo de telas e os caminhos para conciliar tecnologia, prevenção e qualidade de vida
O avanço da inteligência artificial e os impactos da sobrecarga digital sobre a saúde mental estiveram entre os principais temas do Seminário LIDE Wellness – Saúde e Qualidade de Vida, realizado em 22 de outubro, em São Paulo. O encontro reuniu médicos, neurocientistas, empresários e lideranças comunitárias para discutir como o autoconhecimento, a inteligência espiritual, a prevenção de doenças e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais podem contribuir para o uso consciente da tecnologia e a proteção do bem-estar humano.
Com o tema “Inteligência Espiritual: Consciência como Competência, o Diferencial Humano na Era da Inteligência Artificial”, o seminário abordou os desafios impostos por ferramentas capazes de executar tarefas complexas e influenciar decisões, além dos riscos associados ao excesso de estímulos digitais, à pressão por resultados e à dificuldade de manter a atenção em um ambiente cada vez mais conectado.
Os debates também avançaram sobre os efeitos da hiperconectividade no ambiente de trabalho, o crescimento dos transtornos psiquiátricos, a importância da medicina preventiva e a necessidade de ampliar os anos vividos com saúde. A proteção de crianças e adolescentes, a responsabilidade das lideranças e o desenvolvimento de políticas públicas para o envelhecimento ativo completaram a programação.
Inteligência espiritual e responsabilidade humana
Na abertura, o fundador e co-chairman do LIDE, João Doria, destacou a necessidade de promover a pacificação social em meio à polarização e aos conflitos. Ele criticou manifestações de preconceito e defendeu a retomada do diálogo e da civilidade. “Nesse domingo talvez tenhamos as eleições mais significativas da história do país, ou muda ou não muda”, afirmou Doria.
O ex-governador de São Paulo também criticou as divisões que, segundo ele, passaram a surgir entre pessoas que sempre conviveram bem, provocando conflitos familiares e desavenças sociais marcadas pelo ódio. Doria comparou esse cenário à proposta do seminário, pautada pelo amor, pelo entendimento e pela compreensão, mesmo diante de opiniões divergentes.
Ao mencionar as ofensas sofridas por comunidades judaicas, o empresário defendeu a capacidade de perdoar e ressaltou a importância de preservar a paz, o consenso e a harmonia na sociedade brasileira.
Já o mestre espiritual, professor, escritor e líder do LIDE Wellness, Sri Prem Baba, destacou a importância de combinar os avanços tecnológicos com o desenvolvimento da consciência humana.
“A inteligência artificial traz velocidade. A inteligência emocional traz equilíbrio. A inteligência espiritual traz direção — mas, sem direção, a velocidade pode nos levar mais rápido para o lugar errado”, afirmou.
Prem Baba acrescentou que o desafio das lideranças não está apenas em conquistar poder, mas em preservar a humanidade e a consciência diante das possibilidades oferecidas pela tecnologia.
Saúde mental e relações humanas
Os impactos da automação sobre as capacidades humanas foram discutidos pelo médico psiquiatra e neurocientista Sérgio Felipe de Oliveira. O especialista alertou para os possíveis efeitos da redução de atividades que estimulam habilidades cognitivas, manuais e sensoriais, defendendo a importância de combinar o desenvolvimento tecnológico com o autoconhecimento.
“A natureza é toda estruturada no compartilhar, é compensatória e proporciona disrupturas que possibilitam a vida, mas o ser humano criou meios que o distanciaram da força perceptiva da cognição da natureza, perdendo a percepção de pertencimento”, afirmou Oliveira.
O médico também alertou para o risco de a informatização da sociedade, especialmente com o avanço da inteligência artificial, reduzir o exercício de habilidades manuais desenvolvidas ao longo da evolução humana, como a escrita e o desenho.
“O cérebro, na evolução dos tempos, desenvolveu uma grande área cortical e, na falta da escrita manual e do desenho, como se fazia nas cavernas, nas artes rupestres, estamos perdendo essa grande conquista, causando atrofias na memória e corremos o risco da desestruturação cerebral”, declarou.
A médica Denise Noguchi, da gerência de bem-estar e saúde mental do Hospital Israelita Albert Einstein, compartilhou experiências com pacientes em cuidados paliativos e relatou a atuação de profissionais da saúde durante a pandemia de Covid-19. Para ela, a presença e a escuta continuam sendo fundamentais no atendimento e não podem ser substituídas por ferramentas tecnológicas.
“A presença, o olhar, o toque e a escuta atenta continuam sendo o caminho essencial e insubstituível na saúde e na liderança”, afirmou.
A escritora e palestrante Jaqueline Pereira também abordou a relação entre inteligência intelectual, equilíbrio emocional e propósito. Segundo ela, essas capacidades ajudam a resolver problemas práticos e interpessoais, mas não substituem a busca por sentido e identidade.
“Quando olhamos para fora, parece que está tudo resolvido, mas, quando buscamos nosso interior, podemos encontrar um vazio, que só a consciência de quem realmente somos pode nos levar ao autoentendimento do sentido da vida”, afirmou.
Já o empresário Antônio Júnior, proprietário da revista Vida Simples, relatou sua mudança de trajetória profissional, do mercado imobiliário para a comunicação inspiracional. Ele defendeu a organização de iniciativas voltadas ao bem-estar e à transformação social e comparou a espiritualidade a um sistema interno de orientação para as decisões cotidianas.
“Confiar no fluxo da vida torna a vida mais simples”, resumiu.
A atriz e escritora Bruna Lombardi chamou a atenção para a necessidade de preservar a autonomia individual diante das distrações externas. Para ela, o autoconhecimento é essencial para que as pessoas mantenham o controle sobre as próprias escolhas e comportamentos.
“Se as empresas, por meio de seus líderes, não buscarem o equilíbrio e o autoentendimento sobre as razões de sua existência, dificilmente vão atingir um elevado patamar de qualidade, pois toda organização reflete o interior das pessoas que fazem parte do negócio”, afirmou Lombardi.
A escritora também comentou seus lançamentos literários deste ano: O diário do grande sertão, em referência aos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e o romance Mulheres que sentem os espíritos, que, segundo ela, aborda a superação das adversidades da vida.
Saúde mental e afastamentos do trabalho
A discussão sobre o bem-estar humano avançou, no segundo painel do seminário, para os efeitos da pressão por resultados e da hiperconectividade sobre a saúde mental dos trabalhadores.
O psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Hospital Israelita Albert Einstein, apresentou dados sobre a dimensão dos transtornos psiquiátricos no mundo. Segundo os números citados pelo médico, mais de 1,17 bilhão de pessoas vivem com esses transtornos globalmente, enquanto o Brasil enfrenta índices elevados de ansiedade e depressão. "Um em cada cinco brasileiros vai ter um transtorno mental ao longo da vida", afirma.
Um dos principais obstáculos ao enfrentamento desse cenário é a demora no diagnóstico. Em alguns casos, o intervalo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento pode chegar a dez anos.
No ambiente corporativo, os efeitos aparecem nos afastamentos do trabalho. Oliva citou mais de 546 mil afastamentos relacionados a transtornos psiquiátricos em 2024 e destacou o crescimento dos casos de burnout, síndrome associada ao esgotamento relacionado ao trabalho.
O médico também discutiu o uso de ferramentas de inteligência artificial em situações relacionadas à saúde mental. Segundo ele, cerca de um milhão de usuários conversam semanalmente com o ChatGPT sobre planejamento suicida. Embora a tecnologia possa contribuir para a disseminação de informações e oferecer orientação inicial, Oliva ressaltou que ela não substitui profissionais de saúde, especialmente em situações que exigem diagnóstico, tratamento individualizado ou intervenção diante de crises graves.

Produtividade, prevenção e longevidade
O médico geneticista Ricardo de Lázaro, fundador da Genera e representante da Dasa, destacou a diferença entre a expectativa de vida (lifespan) e o período vivido com saúde (healthspan). Segundo ele, embora os avanços da medicina tenham ampliado a longevidade, ainda existe uma distância entre viver mais anos e manter a saúde durante o envelhecimento.
"Pessoas com mais de 50 anos tem 70% de chance de ter duas ou mais doenças crônicas, por isso é importante analisarmos o trabalho da medicina preventiva, da identificação de predisposições genéticas e da adoção de hábitos saudáveis", destacou.
Lázaro também abordou a chamada “curva da felicidade”, segundo a qual a satisfação com a vida tende a diminuir entre os 40 e os 50 anos, período marcado pelo acúmulo de responsabilidades profissionais e pessoais, e volta a crescer entre os 60 e os 70 anos. "Mas essa satisfação não é igual para todas as pessoas e tem como relevância um sono de qualidade, atividade física e bem-estar pessoal"
O CEO do Wellhub, Ricardo Guerra, destacou a influência dos ambientes digitais sobre a atenção e o comportamento. Segundo os dados apresentados por ele, os brasileiros passam mais de nove horas por dia diante de telas e mais de três horas em redes sociais.
Para o executivo, mudanças individuais de comportamento dificilmente se sustentam sem transformações nas empresas e no ambiente social. Guerra afirmou que programas corporativos de bem-estar bem estruturados podem gerar retorno sobre o investimento de cinco a dez vezes o valor aplicado, além de contribuir para reduzir os custos com assistência médica.
A médica especialista em longevidade Fernanda Catena, do Hospital Vila Nova Star, também defendeu uma abordagem integrada da saúde. Ela apresentou o conceito de expossoma, que considera a interação entre genética, comportamento individual e ambiente físico e social na determinação das condições de saúde ao longo da vida.
Catena chamou a atenção para a expansão do mercado de bem-estar e alertou que nem todas as soluções comercializadas apresentam benefícios comprovados. Para ela, a prevenção deve considerar não apenas os fatores biológicos, mas também as condições em que as pessoas vivem e trabalham.
A endocrinologista Simone Matsuda abordou os riscos associados à falta de integração dos dados de saúde dos colaboradores. Privação de sono, sedentarismo, alimentação inadequada e exames preventivos desatualizados podem contribuir para o agravamento de doenças, diagnósticos tardios e acidentes de trabalho.
A médica citou dados sobre os efeitos da obesidade na expectativa de vida e no aumento dos afastamentos profissionais. Também destacou as consequências do diagnóstico de diabetes aos 40 anos para a longevidade e defendeu a adoção de estratégias de acompanhamento preventivo nas empresas.
Segundo Matsuda, programas de cuidado integrado direcionados aos trabalhadores e às lideranças podem contribuir para reduzir licenças médicas e favorecer a retenção de talentos.
A diretora científica da Medley, Jusara Barbuti, reforçou que a busca por produtividade precisa respeitar os limites físicos e emocionais dos trabalhadores. Ela destacou a importância da educação em saúde, da prevenção de doenças e da preservação da autonomia funcional ao longo do envelhecimento.
Autoconhecimento e responsabilidade
A relação entre equilíbrio emocional, tomada de decisões e gestão de crises foi abordada por Isabela Borges, CEO do Instituto Survivor, psicanalista e advogada criminalista.
Segundo ela, a autoliderança e a autorresponsabilidade são fundamentais para enfrentar situações de pressão, tanto na condução de equipes quanto na vida pessoal. A proposta é substituir reações impulsivas por respostas conscientes, especialmente em cenários adversos.
Borges também destacou o trabalho do Instituto Survivor no apoio a mulheres e crianças sobreviventes de violência, com foco no fortalecimento da autonomia emocional.
Os participantes do seminário defenderam, de forma complementar, que a produtividade não deve ser avaliada apenas pelos resultados imediatos, mas também pela capacidade de preservar a saúde, a autonomia e o bem-estar das pessoas.
Políticas públicas e envelhecimento ativo
Representando a administração municipal de São Paulo, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Rodrigo Goulart, apresentou o programa Vitalidade Mais São Paulo, iniciativa que, segundo ele, envolve 21 secretarias municipais e conta com orçamento de aproximadamente R$ 1 bilhão por ano.
Entre as ações mencionadas estão a busca ativa de empreendedores seniores, a intermediação de vagas de emprego para profissionais com mais de 50 anos, o atendimento médico domiciliar, o transporte público gratuito e o incentivo à participação em atividades esportivas e culturais.
As iniciativas buscam ampliar as oportunidades de participação social e econômica da população mais velha, promovendo o envelhecimento ativo e a manutenção da autonomia.
Proteção de jovens
A proteção da saúde mental de crianças e adolescentes diante do uso excessivo de telas esteve entre os assuntos discutidos na etapa final do seminário. Os participantes abordaram medidas de restrição ao uso de celulares nas escolas e a necessidade de preparar educadores para trabalhar competências socioemocionais e autoconhecimento, conforme as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
No encerramento, João Doria ressaltou a presença feminina no evento e defendeu a empatia, o diálogo e a pacificação como caminhos para enfrentar a polarização e a intolerância.
Confira abaixo o seminário completo realizado na Casa Lide
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