Cenipa aponta falha de manutenção e cultura operacional na queda da Voepass em Vinhedo (SP)


Por Redação

24/07/2026  às  10:12:23 | | views 183


© Divulgação/Cenipa

Relatório identifica 19 fatores que contribuíram para acidente que matou 62 pessoas em 2024, incluindo problemas no sistema de degelo, alertas ignorados e falhas em procedimentos internos


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O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apontou falhas de manutenção, problemas operacionais e uma cultura organizacional de normalização de desvios como fatores que contribuíram para a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. O relatório final da investigação foi divulgado nesta quinta-feira (23) e identificou 19 fatores contribuintes para o acidente.

 

A aeronave modelo ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, caiu no dia 9 de agosto de 2024 durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). O acidente deixou 62 mortos, sendo quatro tripulantes e 58 passageiros.

 

Segundo o Cenipa, a investigação identificou fragilidades nos procedimentos de manutenção da companhia e falhas no reporte de problemas operacionais registrados em voos anteriores. A análise apontou que alertas relacionados ao sistema de degelo da aeronave haviam sido observados por diferentes tripulações, mas não foram registrados nos documentos de bordo.

 

Os investigadores analisaram voos anteriores realizados pela mesma aeronave e identificaram ocorrências de formação de gelo e falhas no sistema responsável pela remoção do gelo das superfícies do avião. Apesar dos alertas, os desvios não foram comunicados formalmente. “Três tripulações diferentes realizando normalização de desvio de procedimento. Fizemos uma análise mais ampla e notamos que outras tripulações também faziam isso, o que demonstra uma cultura organizacional”, afirmou o investigador-chefe do Cenipa, tenente-coronel Fróes.

 

O relatório também apontou problemas nos processos de manutenção. De acordo com os investigadores, mecânicos relataram situações em que componentes com falhas eram retirados de uma aeronave e instalados em outra, antes da liberação para operação.

 

Falhas no sistema de degelo

Durante o voo entre Cascavel e Guarulhos, a aeronave recebeu diversos alertas sobre acúmulo de gelo. O sistema também indicou, por oito vezes, redução de velocidade associada ao aumento de peso provocado pelo gelo acumulado na estrutura.

 

O sistema de degelo chegou a ser acionado, mas apresentou falha e foi desligado pelos pilotos. Segundo o Cenipa, o procedimento previsto após uma falha inicial era reiniciar o sistema e, em caso de nova falha, reduzir a altitude do voo para regiões com menor concentração de gelo. Essa medida, porém, não foi adotada.

 

Os investigadores também apontaram que a aeronave apresentava uma restrição operacional relacionada aos limpadores de para-brisa. A condição limitava o voo em situações de chuva ou quando havia previsão de precipitação próxima aos horários de decolagem e pouso.

 

Análise de 15 mil voos

Como parte da investigação, o Cenipa analisou cerca de 15 mil voos realizados pela Voepass para identificar padrões operacionais. Desse total, 1.674 apresentaram algum tipo de alerta relacionado à degradação de desempenho da aeronave.

 

Segundo o órgão, um desses voos registrou perda de controle em algum momento, mas o episódio não havia sido comunicado ao Cenipa, apesar de a notificação ser prevista nos procedimentos de segurança aeronáutica.

 

O relatório concluiu que o acidente teve forte influência de fatores organizacionais, especialmente relacionados à forma como problemas técnicos e desvios operacionais eram tratados dentro da empresa. “O que podemos afirmar é que essa ocorrência foi um acidente com peso elevadíssimo da parte da cultura organizacional. Foram 19 fatores contribuintes, mas a cultura organizacional foi muito presente”, afirmou o chefe do Cenipa, brigadeiro do ar Avellar.



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