Espanha prepara isolamento de passageiros após surto de hantavírus em cruzeiro
Por Richard Wolf
07/05/2026 às 09:40:29 | | views 3095
Grupo de espanhóis será levado para unidade de alta segurança em Madri; autoridades descartam risco de epidemia
MADRI — O governo da Espanha colocou em operação um protocolo sanitário de alto nível após o surto de hantavírus registrado a bordo do navio de expedição MV Hondius, que deixou três mortos e ao menos oito casos confirmados durante uma viagem pela América do Sul. A embarcação deve atracar nos próximos dias em Tenerife, nas Ilhas Canárias, onde começará a retirada e repatriação dos passageiros.
Segundo o Ministério da Saúde espanhol, cerca de 140 pessoas permanecem no navio sem sintomas e em boas condições clínicas. Os casos suspeitos já foram retirados da embarcação.
Entre os passageiros estão 14 espanhóis, que serão transferidos para a Unidade de Isolamento e Tratamento de Alto Nível (Uatan) do Hospital Gómez Ulla, em Madri, referência nacional para doenças infecciosas de alto risco. A estrutura foi criada após a crise do ebola, em 2014.
As autoridades sanitárias ainda não definiram quanto tempo os passageiros permanecerão isolados, mas especialistas apontam que o período de incubação do hantavírus pode chegar a cerca de 45 dias.
“Será necessário determinar exatamente a partir de quando começa a contagem”, afirmou Maria João Forjaz, presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia (SEE). Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros casos no navio surgiram entre os dias 6 e 28 de abril.
Como pessoas assintomáticas não desenvolvem marcadores sorológicos detectáveis, médicos afirmam que o monitoramento contínuo de sintomas continua sendo a principal ferramenta de controle.
Os primeiros sinais da doença costumam se assemelhar aos de uma gripe comum, com febre, mal-estar e dores no corpo. Em alguns pacientes, porém, o quadro evolui rapidamente para complicações pulmonares graves, exigindo internação em unidades de terapia intensiva.
Especialistas alertam que o intervalo entre os sintomas iniciais e o agravamento pode ser de apenas três a seis dias.
Sem vacina ou tratamento antiviral específico, o combate à doença depende de suporte intensivo e diagnóstico precoce. Em casos graves, a taxa de letalidade pode chegar a 50%, embora caia significativamente quando o atendimento médico ocorre rapidamente.
O Ministério da Saúde espanhol tenta conter preocupações nas Ilhas Canárias e afirma que o desembarque não representa risco para a população local nem para a atividade turística da região.
O navio deverá atracar no porto de Granadilla, terminal de menor circulação no sul de Tenerife, escolhido justamente para reduzir a exposição pública. Equipes médicas atuarão com protocolos completos de proteção individual.
Apesar da gravidade da doença, especialistas consideram improvável a ocorrência de transmissão em larga escala. O hantavírus costuma ser transmitido por roedores silvestres, principalmente por meio da inalação de partículas presentes em urina e fezes dos animais.
Segundo a OMS, não há indícios de infestação de roedores no navio. A principal hipótese é que um casal infectado tenha contraído o vírus ainda na Argentina, antes do embarque.
A variante envolvida no episódio seria a cepa dos Andes, rara linhagem do hantavírus capaz de apresentar transmissão limitada entre humanos em situações de contato muito próximo e prolongado.
“São circunstâncias excepcionais, com mais de cem pessoas compartilhando espaços fechados por várias semanas”, afirmou Maria João Forjaz.
Ainda assim, epidemiologistas descartam risco de disseminação ampla na Espanha. “É um vírus muito letal, mas pouco contagioso”, resumiu Nacho de Blas, professor de Patologia Animal da Universidade de Zaragoza.
Após a retirada dos passageiros, o navio deverá passar por processo de desinfecção antes de eventual retomada das operações. Técnicos afirmam que a limpeza necessária é relativamente simples e que não há cenário comparável ao registrado durante a pandemia de covid-19.
“O hantavírus é conhecido há décadas. Seus mecanismos de transmissão estão bem estabelecidos”, afirmou um pesquisador do Instituto de Saúde Carlos III. “Não existe possibilidade de uma epidemia de hantavírus na Espanha.” (Com Agências Internacionais)
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