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Gigantes dos grãos ampliam domínio e impõem perdas bilionárias


Por Redação

02/12/2025  às  07:22:36 | | views 2364


@blanz group

Estudo apresentado no Fórum BRICS+ revela como plataformas digitais, financeirização e concentração histórica fortalecem tradings globais e pressionam produtores e consumidores


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A crescente concentração de poder entre as maiores tradings agrícolas do mundo está redefinindo o comércio global de grãos, elevando custos em toda a cadeia e impondo perdas bilionárias aos produtores. A avaliação integra o relatório From Farm to Futures: Competition, Financialization, and Digitalization in Global Grain Value Chains, apresentado no 4º Fórum BRICS+ de Concorrência Digital, realizado no Rio de Janeiro.

 

No Brasil, o impacto já é palpável: a Moratória da Soja teria provocado um prejuízo estimado de R$ 4 bilhões aos agricultores — cerca de US$ 750 milhões. Somando efeitos semelhantes nos países exportadores dos BRICS, as perdas anuais superam US$ 2,5 bilhões.

 

Para o presidente do CADE, Gustavo Augusto Freitas de Lima, a combinação entre concentração, financeirização e transformação tecnológica está remodelando as cadeias globais de alimentos e exige atenção reforçada das autoridades de concorrência. “O relatório oferece uma análise oportuna sobre como esses fatores vêm alterando o mercado global de grãos”, afirmou.

 

Oligopólio em evolução: poder que atravessa a cadeia

O estudo mostra que o domínio histórico do grupo ABCD+ — ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus Company, COFCO, Olam e outras — assumiu nova escala. De tradings comerciais, essas empresas evoluíram para ecossistemas integrados que associam logística, infraestrutura portuária, análise de dados, operações financeiras e controle digital da circulação de commodities.

 

Essa integração amplia a capacidade das multinacionais de influenciar preços e coordenar fluxos globais. Um ágio monopolista de 15% sobre serviços logísticos e comerciais, aplicado a apenas 20% do volume negociado, pode gerar um custo extra de mais de US$ 2,5 bilhões por ano a países como Brasil e Rússia.

 

Plataformas digitais: o novo centro de gravidade

A digitalização intensificou o poder dessas empresas. Plataformas como Covantis e TRACT se tornaram infraestruturas estratégicas, permitindo coordenação operacional em escala global. A Covantis, controlada pelo próprio grupo ABCD+, movimentou 808 milhões de toneladas em 2023 — respondendo por 76% das exportações do Brasil e por mais de metade das exportações dos Estados Unidos e da Argentina.

 

Essa centralização digital reduz o espaço competitivo de empresas regionais e opera, em grande medida, fora do alcance das autoridades antitruste tradicionais. Somada à assimetria de informação, ela permite às tradings controlar dados críticos sobre produção, estoques e fluxos logísticos, influenciando preços e ampliando margens.

 

Sustentabilidade como vetor competitivo

O relatório chama atenção para o uso de acordos ambientais como mecanismo de reforço de poder. Segundo Alexey Ivanov, um dos autores, iniciativas sustentadas por plataformas digitais — como a Moratória da Soja — podem funcionar como arranjos anticoncorrenciais sob justificativa ambiental. A CNA estima que o acordo já provocou R$ 4 bilhões em prejuízos aos produtores brasileiros, revelando como sustentabilidade e poder de mercado podem se entrelaçar.

 

Caminhos para reequilibrar o mercado

Os pesquisadores recomendam que os BRICS desenvolvam análises de grande escala, com olhar vertical para toda a cadeia — do campo ao porto, passando por logística, financiamento e comercialização. Entre as propostas estruturais está o envolvimento direto das autoridades de concorrência na construção da Bolsa de Grãos dos BRICS, já anunciada pelos líderes do bloco.

 

Uma plataforma comum, com formação de preços mais transparente e mecanismos de hedge acessíveis, poderia reduzir volatilidade, limitar práticas especulativas e restabelecer condições mais equilibradas no mercado global de grãos.



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