Estudo da USP mostra que desmatamento já altera clima da Amazônia
Por Redação
04/09/2025 às 08:49:06 | | views 3027
Pesquisa aponta aumento de 2?°C e estiagens mais severas; ritmo atual pode levar bioma ao colapso climático até 2035
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) alerta que o desmatamento e as mudanças climáticas já estão provocando transformações profundas no clima da Amazônia brasileira. Entre 1985 e 2020, a temperatura média da floresta aumentou cerca de 2?°C, e o período de seca se tornou mais longo e severo. A perda de cobertura vegetal foi responsável por 74,5% da redução das chuvas e por 16,5% do aumento das temperaturas nos meses de estiagem.
Os dados fazem parte de uma análise que revisou 35 anos de registros climáticos e ambientais do bioma. O estudo, publicado com destaque na revista Nature, foi coordenado pelo professor Marco Franco, do Instituto de Astronomia da USP, e utilizou informações do consórcio MapBiomas e do Estudo Mapaclim.
Para medir o impacto, os pesquisadores dividiram a Amazônia brasileira em 29 blocos territoriais de 300 km por 300 km. Essa abordagem permitiu analisar o comportamento climático em grande escala e cruzá-lo com dados de desmatamento obtidos por sensoriamento remoto com precisão de até 30 metros. O resultado foi um retrato detalhado das transformações climáticas associadas à degradação ambiental da floresta.
“A Amazônia já está impactada. Não há mais margem para estresses adicionais ao bioma, sejam internos — como o desmatamento — ou externos, como o aquecimento global”, afirma Franco.
Estresse climático pode se agravar já na próxima década
O estudo mostra que a média atual de perda da cobertura vegetal na Amazônia brasileira é de 19%, mas há áreas onde esse índice chega a 80%. Segundo os pesquisadores, se o ritmo atual de desmatamento e de emissões globais de gases de efeito estufa for mantido, a região poderá sofrer alterações extremas no clima até 2035, aproximando-se do que especialistas chamam de "ponto de estresse" — uma situação de desequilíbrio irreversível para o bioma.
A seca, por exemplo, já aumentou, em média, 12 dias a cada década. E os impactos são sentidos com níveis relativamente baixos de desmatamento: perdas de apenas 10% da vegetação já levam a uma queda expressiva na precipitação e ao aumento da temperatura local.
“É um alerta importante. Em regiões com 10% a 40% de supressão da vegetação, o impacto é mais acentuado. Acima disso, o dano continua, mas o potencial de recuperação se torna cada vez menor”, diz Franco.
Segundo o levantamento, as chuvas caíram cerca de 21 milímetros por ano durante a estação seca. Desse total, 15,8 mm de redução são atribuídos diretamente ao desmatamento. Já o aumento da temperatura foi de cerca de 2?°C, com 16,5% desse valor relacionado à perda florestal — o restante é efeito das mudanças climáticas globais.
Impactos variam por região e tornam o problema compartilhado
O estudo também revela que os impactos do desmatamento e do aquecimento global não são uniformes. Na Amazônia oriental, onde a cobertura vegetal se mantém mais próxima da original, o aumento da temperatura é atribuído majoritariamente às emissões industriais globais. Já em regiões mais desmatadas, como o sudeste do bioma, os efeitos locais do desmatamento têm peso semelhante ao das mudanças climáticas externas.
“Isso deixa claro que o problema não é apenas brasileiro. Mas ao mesmo tempo, mostra a nossa responsabilidade direta com a preservação do bioma e a necessidade de diálogo com os países emissores do Norte global”, destaca o professor Luiz Machado, que também participou da pesquisa.
Os pesquisadores evitam usar o termo “ponto de não retorno”, por ainda não haver consenso científico sobre o conceito. Mas reforçam que, com os dados disponíveis, não há margem segura para ampliar a exploração econômica da região, especialmente com grandes projetos como usinas, estradas ou mineração.
Estudo fornece parâmetros para políticas e pesquisas futuras
Além da constatação do impacto direto do desmatamento sobre o clima regional, a pesquisa da USP disponibilizou dados e parâmetros que podem ser utilizados por outros grupos científicos — incluindo biólogos, climatologistas e planejadores ambientais — para avaliar os efeitos das mudanças em ecossistemas mais específicos.
Agora, o grupo trabalha em simulações para estimar os cenários possíveis até o fim do século, caso diferentes estratégias de mitigação sejam ou não adotadas.
Entre 1985 e 2023, a Amazônia brasileira perdeu 14% de sua vegetação nativa — um total de 553 mil km², área equivalente ao território da França. Segundo o MapBiomas, a principal causa foi a expansão de pastagens. Apesar da desaceleração recente no ritmo de desmatamento, o fogo e o avanço agrícola continuam sendo ameaças constantes à estabilidade do bioma.
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