Colunista

Lucas Martins de Oliveira

O varejo coleta cada vez mais dados, mas continua conhecendo pouco seus clientes


14/07/2026 | 00:00:00 | Visto por: 74 leitores

Nunca houve tantos dados disponíveis ao mercado sobre o comportamento do consumidor. Compras realizadas em lojas físicas, aplicativos, e-commerce, programas de fidelidade e canais de atendimento geram diariamente um enorme volume de informações. Ainda assim, muitas empresas do varejo enfrentam dificuldades para transformar esses dados em conhecimento capaz de orientar decisões estratégicas e oferecer experiências realmente personalizadas aos seus clientes e potenciais clientes.

 

A personalização tornou-se uma das principais promessas do varejo, leia novamente: promessas. Espera-se que as empresas reconheçam o cliente em qualquer canal de contato, compreendam seu histórico de compras, antecipem necessidades e ofereçam produtos e serviços cada vez mais relevantes. No entanto, para que isso aconteça, não basta acumular dados. É preciso que essas informações estejam integradas, padronizadas e disponíveis para apoiar a tomada de decisão, caso contrário, são apenas dados jogados ao vento.

 

Na prática, muitas organizações ainda convivem com informações distribuídas em sistemas diferentes, indicadores calculados de maneiras distintas entre as áreas e baixa integração entre operações, marketing, vendas e atendimento. O resultado aparece em situações comuns para o consumidor: campanhas enviadas para quem já cancelou um serviço, recomendações que ignoram compras recentes, ofertas repetidas ou indisponibilidade de produtos que deveriam estar em estoque.

 

O maior desafio do varejo não é coletar mais dados, mas garantir que todas as áreas trabalhem com informações consistentes e utilizem os mesmos indicadores para tomar decisões. Quando cada sistema apresenta uma versão diferente do cliente, a personalização passa a ser apenas uma tentativa baseada em informações incompletas.

 

Esse cenário evidencia uma diferença importante entre o varejo e outros setores da economia. A indústria, por exemplo, evoluiu significativamente ao estruturar processos de governança de dados voltados ao controle da produção e da eficiência operacional, orientando decisões continuamente, reduzindo desperdícios e aumentando a previsibilidade dos processos. Parte do varejo ainda percorre esse caminho, mas sob uma pressão muito maior por velocidade, competitividade e mudanças constantes no comportamento do consumidor.

 

Quando plataformas de e-commerce, sistemas de CRM, pontos de venda físicos e canais de atendimento não compartilham informações de forma integrada, o varejista passa a acumular dados sem, necessariamente, construir conhecimento. O problema, portanto, não está na quantidade de informações disponíveis, mas na capacidade de transformá-las em inteligência para o negócio.

 

Esse processo começa pela construção de uma arquitetura de dados consistente, capaz de integrar diferentes fontes de informação, estabelecer regras de governança e criar indicadores únicos para toda a organização. Plataformas modernas de Business Intelligence, engenharia analítica e processamento de dados em larga escala permitem identificar inconsistências e eliminar redundâncias, mas mais importante do que a tecnologia escolhida é a existência de uma estratégia capaz de garantir que todas as áreas trabalhem com a mesma base de informações.

 

Quando vendas, marketing, logística e atendimento passam a utilizar indicadores únicos e consistentes, os benefícios aparecem em toda a operação. As campanhas tornam-se mais relevantes, as previsões de demanda ganham precisão, a gestão de estoques melhora e a experiência do consumidor se torna mais fluida, independentemente do canal utilizado. No fim das contas, conhecer o cliente não depende de centenas de dados disponíveis, mas da qualidade com que eles são organizados e utilizados.



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