Trabalho infantil ainda atinge 1,5 milhão de crianças e adolescentes
Por Redação
16/10/2026 às 11:03:08 | | views 41
Apesar de queda de 9,2% em 2025, país mantém jovens em atividades irregulares; pretos e pardos são 67% dos casos, e quase metade dos adolescentes de 16 e 17 anos trabalha ao menos 25 horas por semana
O trabalho infantil atingia 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos no Brasil em 2025, o equivalente a 4% da população nessa faixa etária. O número caiu 9,2% em relação a 2024, mas os dados divulgados nesta sexta-feira (16) pelo IBGE mostram que o problema continua afetando sobretudo grupos mais vulneráveis.
Em 2016, o país tinha cerca de 2,1 milhões de crianças e adolescentes nessa situação. Desde então, houve uma redução de 28,6%, interrompida por oscilações ao longo do período. Após a queda registrada entre 2016 e 2019, os números voltaram a subir em 2022, durante a pandemia, recuaram em 2023 e tiveram nova alta em 2024.
Para Gustavo Fontes, pesquisador do IBGE, a redução mais recente pode estar relacionada a uma combinação de fatores, entre eles políticas de transferência de renda, ações de fiscalização, aumento dos rendimentos das famílias e melhora do mercado de trabalho.
A renda, porém, continua sendo um fator de vulnerabilidade. Segundo a pesquisa, os domicílios com crianças e adolescentes que recebiam o Bolsa Família tinham rendimento médio mensal per capita de R$ 660 em 2025. Entre os que não recebiam o benefício, a média era de R$ 1.990.
O trabalho infantil ainda era mais frequente entre moradores de domicílios beneficiários do programa: 4,4%, ante 4% na população total. A diferença, no entanto, diminuiu nos últimos anos. Entre 2016 e 2025, o contingente de crianças e adolescentes nessa condição caiu 41% entre os beneficiários, contra 29% no conjunto da população.
Os dados não permitem atribuir a redução a uma única política pública. Mostram, contudo, que o trabalho infantil permanece ligado a condições de vida que tornam mais difícil para parte das famílias manter crianças e adolescentes afastados de atividades precoces.
Adolescentes são os mais afetados
A incidência cresce com a idade. Entre crianças de 5 a 13 anos, 280 mil estavam em situação de trabalho infantil em 2025, o equivalente a 1,1% da população dessa faixa etária. Entre adolescentes de 14 e 15 anos, eram 348 mil, ou 5,9%. Já no grupo de 16 e 17 anos, o número chegava a 871 mil, correspondentes a 14,5%.
A legislação brasileira permite o trabalho a partir dos 14 anos apenas na condição de aprendiz. Aos 16 e 17 anos, o emprego é permitido, desde que respeitadas restrições como a proibição de atividades perigosas, insalubres e noturnas.
A jornada também preocupa. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos identificados pela pesquisa, 49,6% trabalhavam 25 horas ou mais por semana. Para 29,6%, a jornada chegava a pelo menos 40 horas.
A frequência escolar é menor entre os jovens que trabalham em condições irregulares. Na população geral de 16 e 17 anos, 89,6% frequentavam a escola. Entre aqueles em situação de trabalho infantil, o índice era de 79,6%. A diferença se repete, em menor proporção, entre os adolescentes de 14 e 15 anos.
Desigualdade racial e regional
Pretos e pardos representavam 67% das crianças e dos adolescentes em situação de trabalho infantil, embora correspondessem a 59,7% da população de 5 a 17 anos. Os brancos, por sua vez, eram 32% dos casos e 39,5% da população nessa faixa etária.
A distribuição regional também apresenta diferenças. O Sudeste concentrava o maior número absoluto de casos, com 481 mil, seguido pelo Nordeste, com 408 mil. Em relação ao tamanho da população local, porém, o Norte tinha a maior proporção: 6,3%. No Sudeste, o índice era de 3,3%.
Meninos e adolescentes do sexo masculino correspondiam a 65,4% dos casos, apesar de representarem 51,2% da população dessa idade.
Mais de 500 mil em atividades de risco
Dos 1,499 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, 525 mil exerciam atividades classificadas como piores formas de trabalho infantil, que oferecem riscos à saúde, à segurança ou ao desenvolvimento. A lista prevista na legislação inclui trabalhos perigosos e situações de exploração.
O número caiu em relação aos 560 mil registrados em 2024 e aos 919 mil de 2016, mas ainda representa um contingente expressivo de crianças e adolescentes expostos a condições especialmente prejudiciais.
A maior parte dos casos envolvia atividades econômicas, que reuniam 1,141 milhão de pessoas. Outras 358 mil realizavam apenas atividades de autoconsumo, voltadas à produção de bens para a própria subsistência familiar.
O comércio concentrava 29% dos casos, seguido por outras atividades, com 23,1%, e agricultura e pecuária, com 16,7%. A indústria geral respondia por 12,5%, e alojamento e alimentação, por 12,2%.
Entre os adolescentes de 16 e 17 anos em situação de trabalho infantil, 67% estavam na informalidade. Nesse grupo, predominavam empregados sem carteira assinada, trabalhadores domésticos, autônomos sem CNPJ e auxiliares familiares.
A pesquisa também identificou que 15,9 milhões de brasileiros de 5 a 17 anos realizavam tarefas domésticas não remuneradas ou cuidavam de outras pessoas. Isso corresponde a 42,1% da população nessa idade. Entre meninas, a proporção era de 47,9%; entre meninos, de 36,6%.
Essas tarefas não são classificadas automaticamente como trabalho infantil, mas a diferença entre os sexos mostra que as responsabilidades domésticas começam cedo e recaem mais sobre as meninas.
A redução registrada em 2025 é relevante, mas os números ainda mostram a dimensão do problema. A combinação de trabalho precoce, informalidade, jornadas extensas e menor frequência escolar continua impondo obstáculos à formação de milhares de jovens, em um país no qual as oportunidades ainda são distribuídas de forma desigual.
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