Santinhos cobrem ruas e expõem eleitor a crime que se repete nas eleições
Por Redação
25/09/2026 às 07:38:55 | | views 29
Derramamento de propaganda na madrugada é proibido, pode causar acidentes e transfere ao poder público o custo de limpar a sujeira das campanhas
É noite de eleição. Enquanto candidatos encerram suas campanhas e eleitores se preparam para votar, equipes de campanha podem dedicar-se a uma última estratégia: espalhar santinhos pelas ruas próximas aos locais de votação. Na manhã seguinte, o eleitor encontra no chão aquilo que a legislação eleitoral proíbe — e que as cidades precisam recolher.
O chamado derramamento de santinhos é crime eleitoral e pode resultar em detenção e multa. A prática, porém, continua recorrente nas eleições brasileiras, sobretudo na madrugada que antecede a votação.
Problema não apenas visual
Espalhados em calçadas, escadarias e entradas de escolas, os papéis podem provocar quedas e acidentes. Idosos e pessoas com deficiência estão entre os mais vulneráveis.
Um caso ocorrido em Bauru, no interior de São Paulo, mostra que o risco não é hipotético. Nas eleições de 2012, uma eleitora idosa escorregou sobre os santinhos próximos a um local de votação. Ela fraturou a bacia, foi internada e morreu três dias depois por complicações do trauma.
O episódio é citado pelo vice-presidente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) e corregedor regional eleitoral, Roberto Maia Filho, ao alertar para os riscos da prática.
Campanha termina, sujeira fica
O derramamento costuma acontecer de madrugada. O horário favorece quem espalha o material e dificulta a remoção antes da chegada dos eleitores. Mas não é raro ver, no próprio dia das eleições, pessoas espalhando santinhos pelas cidades brasileiras.
É uma operação de curto prazo com efeito conhecido: a campanha ganha mais uma oportunidade de expor seus candidatos, enquanto a cidade fica com o trabalho de recolher o papel.
A contradição é evidente. O material que deveria servir à comunicação entre candidato e eleitor transforma-se em lixo justamente no caminho para a votação. É uma estratégia que pode parecer inofensiva quando envolve uma única folha ganha outra dimensão quando milhares de papéis são despejados nas proximidades de uma seção eleitoral.
Para Maia Filho, a prática também revela uma aposta questionável na capacidade de convencimento de um santinho abandonado na rua. O corregedor relata já ter ouvido de um candidato que o eleitor poderia encontrar a propaganda no caminho para votar e, a partir dela, decidir seu voto.
Além de ilegal, a estratégia cria um problema para quem nada tem a ver com a disputa eleitoral: o eleitor que precisa atravessar uma calçada coberta de papel e o município que terá de limpar o local.
Crime que virou paisagem
A repetição do derramamento ajuda a produzir um problema que parece normalizado, uma vez que os próprios partidos não se preocupam com a questão. A cena se tornou tão conhecida que corre o risco de ser confundida com parte inevitável da eleição. Mas, na verdade, trata-se de algo extremamente grave.
A legislação eleitoral proíbe o derramamento de material de propaganda e prevê punições para a conduta. A possibilidade de fiscalização e denúncia existe justamente para evitar que uma irregularidade se transforme em tradição.
O eleitor pode comunicar ocorrências pelo aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral. A ferramenta permite encaminhar denúncias sobre propaganda irregular e anexar fotos, vídeos e áudios que contribuam para a apuração.
Tamanho do problema
O TRE-SP prepara cerca de 114,5 mil urnas eletrônicas para o primeiro turno. Apenas na capital paulista, vão ser mais de 28 mil máquinas.
São Paulo concentra mais de 34 milhões de eleitores e é o maior colégio eleitoral do país. Em um universo desse tamanho, pequenas irregularidades reproduzidas em larga escala deixam de ser pequenas.
Milhares desses santinhos espalhados diante de escolas transformam uma irregularidade eleitoral em problema de segurança, limpeza urbana e respeito ao espaço público.
A Justiça Eleitoral promete uma votação transparente e segura, porém, para o eleitor, a segurança deveria começar antes de chegar às urnas, sem que precisasse caminhar sobre o lixo produzido por quem pretende conquistar seu voto dos cidadãos brasileiros
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