Desmatamento recua no Brasil, mas devastação ainda elimina 112 hectares por hora
Por Redação
27/05/2026 às 07:34:51 | | views 143
Mesmo com queda histórica registrada em 2025, avanço da agropecuária mantém pressão sobre Cerrado e Amazônia e expõe limites da política ambiental brasileira
Pela primeira vez em seis anos, o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento anual para menos de 1 milhão de hectares. O dado, divulgado nesta quarta-feira (27) pelo Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD2025), do MapBiomas, mostra uma queda de 20,6% em relação ao ano anterior. A notícia, embora positiva, está longe de representar um cenário confortável para a política ambiental brasileira.
Na prática, o país ainda perdeu quase 985 mil hectares de vegetação nativa em apenas um ano. Isso significa que, mesmo com a redução, o Brasil continuou destruindo cerca de 112 hectares por hora — um ritmo que expõe o tamanho do desafio ambiental que permanece em curso.
O levantamento revela uma contradição recorrente na agenda ambiental brasileira: os índices melhoram, mas a devastação segue em escala gigantesca.
O Pantanal apresentou a maior redução proporcional entre os biomas, com queda de 48,4% no desmatamento. Ainda assim, mais de 12 mil hectares foram destruídos no território ao longo de 2025. Já o Cerrado permanece como principal fronteira da devastação ambiental no país. Sozinho, o bioma respondeu por mais da metade de toda a área desmatada registrada no Brasil.
A Amazônia também registrou redução, de 23,5%, mas os números continuam elevados. Foram quase 290 mil hectares devastados em um ano. Segundo o MapBiomas, o ritmo de destruição na floresta equivale à derrubada de aproximadamente cinco árvores por segundo.
Os dados reforçam que a redução do desmatamento não significa, necessariamente, mudança estrutural no modelo de exploração territorial do país. A principal pressão continua vindo da agropecuária, responsável por 99% da perda de vegetação nativa registrada em 2025.
A expansão agrícola segue avançando especialmente sobre o Matopiba — região que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — consolidada nos últimos anos como principal eixo de avanço da fronteira agropecuária brasileira.
Foi justamente no Piauí que apareceu o município com maior área desmatada do país em 2025. Canto do Buriti liderou o ranking nacional ao registrar mais de 20 mil hectares devastados. Na média, foram destruídos cerca de 80 campos de futebol por dia.
Outro ponto que chama atenção no relatório é o avanço de atividades econômicas consideradas estratégicas para a chamada transição energética. Na Caatinga, empreendimentos ligados à geração de energia renovável concentraram parte importante do desmatamento associado a esse tipo de atividade, mostrando que nem mesmo projetos sustentáveis estão livres de impactos ambientais relevantes.
O estudo também aponta que terras indígenas e unidades de conservação continuam funcionando como barreiras importantes contra a devastação. Ainda assim, os números dentro dessas áreas permanecem preocupantes. Mais de 46 mil hectares foram desmatados em unidades de conservação ao longo de 2025, enquanto as terras indígenas perderam outros 12,5 mil hectares de vegetação nativa.
Mesmo diante da redução registrada neste ano, especialistas avaliam que o Brasil ainda opera sob uma lógica de desenvolvimento baseada na expansão territorial e na conversão de áreas naturais em ativos econômicos. O resultado é um país que comemora a queda do desmatamento ao mesmo tempo em que continua destruindo milhares de hectares de vegetação todos os dias.
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