Brasil reduz perdas florestais, mas é líder global em desmatar
Por Redação
29/04/2026 às 07:13:14 | | views 101
Queda expressiva em 2025 expõe limites das políticas ambientais diante da pressão agropecuária e das fragilidades no controle estrutural
O Brasil registrou a perda de 1,6 milhão de hectares de cobertura arbórea em florestas tropicais úmidas em 2025, segundo dados do Global Forest Watch, divulgados pelo World Resources Institute (WRI). Embora o número represente uma redução significativa de 42% em relação a 2024, o país permanece como o maior responsável pela devastação global — concentrando mais de 37% de toda a perda registrada no planeta.
A melhora nos indicadores, celebrada por representantes do WRI e atribuída a esforços coordenados entre governo, sociedade civil e setor privado, revela avanços pontuais, mas ainda insuficientes diante da escala do problema. A redução foi puxada principalmente pela queda nas perdas sem uso do fogo — como desmatamento direto, corte raso e degradação natural — que atingiram o menor nível desde o início da série histórica, em 2001.
Apesar dos índices, o dado absoluto expõe uma contradição persistente: o Brasil melhora, mas continua liderando a devastação florestal. Em termos de segurança ambiental — eixo cada vez mais central no debate estratégico global —, a posição do país permanece vulnerável, tanto pela pressão interna quanto por sua relevância no equilíbrio climático.
Estados como Amazonas, Mato Grosso, Acre e Roraima concentraram boa parte da redução, indicando que ações localizadas podem produzir resultados concretos. No entanto, o avanço da perda no Maranhão sinaliza a fragilidade de políticas uniformes e a dificuldade de controle em regiões específicas, muitas vezes marcadas por expansão desordenada da fronteira agrícola.

Outro ponto crítico está na metodologia: os dados do Global Forest Watch vão além do desmatamento tradicional medido por sistemas oficiais brasileiros, incorporando fatores como corte seletivo e degradação natural. Isso amplia o diagnóstico, mas também escancara lacunas no monitoramento estatal, que ainda trabalha com métricas mais restritas.
No cenário global, a perda total de florestas tropicais caiu 35% em 2025, somando 4,3 milhões de hectares. Ainda assim, os números permanecem distantes das metas internacionais de reversão do desmatamento até 2030. Segundo o próprio WRI, o mundo está cerca de 70% acima do limite necessário para cumprir o compromisso.
Os incêndios seguem como um vetor crítico e crescente. Nos últimos três anos, o impacto do fogo na perda florestal dobrou em relação às duas décadas anteriores — um indicativo direto da intensificação das mudanças climáticas e da incapacidade global de adaptação.
A expansão agrícola continua sendo o principal motor da devastação nos trópicos, impulsionada tanto pela demanda internacional por commodities quanto por pressões locais de subsistência. Nesse contexto, iniciativas como pagamento por serviços ambientais, incentivos fiscais e intensificação produtiva em áreas já degradadas aparecem como alternativas, mas ainda carecem de escala e continuidade.
A leitura crítica dos dados aponta para um cenário ambíguo: o Brasil demonstra capacidade de redução, mas ainda opera dentro de um modelo que sustenta a pressão sobre seus biomas. Em termos de segurança — ambiental, climática e alimentar —, a equação permanece instável.
Sem mudanças estruturais mais profundas, a queda registrada em 2025 corre o risco de ser apenas um alívio estatístico em meio a uma tendência de longo prazo ainda preocupante.
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