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Setor público mira autonomia digital com o uso da I.A


Por Redação

03/04/2026  às  19:38:06 | | views 130


@Evandro Macedo/LIDE

Governadores, prefeitos e líderes do setor privado se reuniram no Seminário LIDE para discutir como IA nacional e integração de dados podem modernizar serviços e reduzir a dependência das big techs


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No Brasil, a inteligência artificial deixou os laboratórios e entrou no coração do setor público. O que antes parecia um experimento tecnológico agora se transformou em uma corrida por autonomia, eficiência e soberania digital. Governadores, prefeitos, parlamentares e líderes do setor privado se reuniram no dia 25 de março, em São Paulo, no Seminário LIDE – Inteligência Artificial, para discutir como o Estado pode usar a IA para modernizar serviços, proteger dados e reduzir a dependência de plataformas internacionais.


foto: silva/segnews

O Piauí deu o exemplo. O governador Rafael Fonteles apresentou o Soberano 1, modelo de linguagem próprio treinado com 500 bilhões de tokens em português e desenvolvido em parceria com o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). Fonteles destacou que o rastreio de celulares roubados e o cruzamento de dados com operadoras reduziram os furtos no estado em 78% — uma diferença que, segundo ele, é sentida no dia a dia de moradores e comerciantes. “Sem infraestrutura própria e mudança cultural, a tecnologia servirá apenas para digitalizar ineficiências”, afirmou, defendendo a autonomia tecnológica como estratégia para reduzir a dependência das big techs.

 

O governador ressaltou também a necessidade de capacitação massiva da população, especialmente entre os jovens, para garantir o bom uso da tecnologia. “No Piauí, a disciplina de Inteligência Artificial é obrigatória no ensino médio e vamos avançar, em parceria com os municípios, para incluí-la também no ensino fundamental”, disse.

 

No plano federal, Carlos Rodrigo Fonseca, Head de IA do Serpro, reforçou que proteger os dados dos brasileiros é prioridade. A empresa processa 50 milhões de validações faciais por mês e mantém as informações em uma “nuvem soberana”, evitando que trafeguem para fora do país. A estratégia inclui ainda a diversificação de processadores, combinando tecnologia americana e chinesa, para não ficar refém de decisões geopolíticas.

 

No campo legislativo, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator do Marco Legal da Inteligência Artificial, informou que o projeto deve ser votado pela comissão especial da Câmara em meados de abril. “Acredito que 90% já foi endereçado. Embora ainda haja negociações, espero que em maio o texto seja aprovado”, afirmou, destacando que a lei será simples e prática em sua aplicabilidade, evitando sobreposição a legislações já existentes.

 

A corrida global por hardware, entretanto, é outro desafio. Leonardo Santos, fundador da Semantix, alertou que processadores de última geração da Nvidia têm fila de espera de dois anos. Segundo ele, o Brasil não vencerá essa corrida apenas competindo de frente com as Big Techs. A solução está na criação de Small Language Models (SLMs) hiperespecializados, capazes de aproveitar dados nacionais — como os do SUS — para gerar impacto concreto na vida do cidadão.

 

A experiência prática já mostra resultados em estados como Alagoas e Mato Grosso. Em Alagoas, câmeras de pesagem de caminhões foram transformadas em hubs de segurança, aumentando apreensões de drogas. Em Mato Grosso, o MT Cidadão integrou Detran, PGE e Fazenda, permitindo campanhas de vacinação cirúrgicas e agilizando processos administrativos. Ainda assim, prefeitos de municípios menores alertam que manter infraestrutura e equipes de cibersegurança compatíveis com a hiperconectividade continua sendo um desafio.

 

O seminário também trouxe reflexões sobre o impacto civilizacional da IA. Charles Bezerra, fundador da Renaissance Minds e Swarms, comparou a fase atual da tecnologia ao início da Revolução Industrial: “Estamos na fase das carroças motorizadas, sem perceber o impacto real em nossas vidas”. Para ele, a IA representa o lado pragmático da mente — rápido, lógico e eficiente — e competir diretamente com ela é inviável. A saída, defende, é resgatar intuição, sabedoria e visão holística, o que Bezerra chama de Mestre, frente ao Emissário, que mede tudo pelo valor imediato e pragmático.

 

Para o Brasil, a lição é clara: a tecnologia, por si só, não garante eficiência nem soberania. Sem infraestrutura própria, mudança cultural e gestão estratégica, a IA corre o risco de apenas digitalizar antigas falhas do setor público. O emaranhado burocrático permaneceria — só que agora sob o comando de algoritmos. Entre soluções inovadoras e desafios estruturais, o verdadeiro diferencial estará em quem conseguir usar máquinas inteligentes para ampliar o raciocínio humano, resgatando intuição, visão holística e capacidade de decisão — habilidades que a inteligência artificial ainda não consegue replicar.



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