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Violência no Rio bloqueia transporte e escancara falhas na segurança


Por Redação

26/03/2026  às  08:13:46 | | views 92


@Tânia Rêgo/Agência Brasil

Estudo aponta impacto direto de operações policiais e ações criminosas no acesso à educação, aprofundando desigualdades


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A violência armada no Rio de Janeiro tem imposto barreiras concretas ao acesso à educação e exposto fragilidades estruturais da política de segurança pública. Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, quase 190 mil estudantes da rede municipal tiveram seus trajetos escolares afetados por interrupções no transporte. Os dados fazem parte do estudo Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro, divulgado nesta quinta-feira (26) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).


A pesquisa contabilizou 2.228 episódios de paralisação nos modais de transporte utilizados por alunos, sendo quase metade em dias e horários letivos. As causas revelam um cenário complexo e, em muitos casos, contraditório: barricadas erguidas por grupos armados lideram os registros, mas operações policiais aparecem como o segundo principal fator de interrupção — evidenciando o impacto direto da própria ação do Estado na rotina da população.

 

Com duração média de sete horas — e frequentemente ultrapassando um turno escolar completo —, os bloqueios impedem o deslocamento de estudantes e, na prática, inviabilizam o acesso à sala de aula. O efeito, no entanto, vai além da perda de conteúdo: a recorrência da violência cria um ambiente de medo que desestimula a frequência escolar e compromete a saúde mental de crianças e adolescentes.

 

Para a chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, Flavia Antunes, esses acontecimentos trazer um problema sério no aprendizado e no futuro das crianças e dos jovens. “Impacta muito a trajetória de uma vida quando ocorre o impedimento do acesso a um direito fundamental, como a educação”.

 

Segundo a especialista os episódios que ocorrem no horário de entrada e de saída da escola acabam criando nas crianças e nos adolescentes um temor de que, no dia seguinte, ocorra a mesma coisa. Isso contribui para desestimular os estudantes a irem para a escola, além de desencadear questões de saúde mental e impactar a capacidade de aprendizado. 

 

A distribuição territorial do problema reforça desigualdades históricas. Regiões como Penha, Bangu e Jacarepaguá concentram a maior parte das interrupções, acumulando dezenas de dias sem circulação de transporte. Nessas áreas, a instabilidade deixou de ser episódica e passou a integrar o cotidiano, enquanto dezenas de bairros da cidade permanecem praticamente imunes ao problema — um contraste que evidencia a seletividade da violência urbana.

 

Especialistas apontam que o modelo de segurança pública vigente, centrado em operações pontuais e de alta letalidade, contribui para a dinâmica que busca combater. A ausência de policiamento contínuo abre espaço para o controle territorial por grupos armados, que reagem com barricadas e outras estratégias para dificultar a entrada das forças de segurança. O resultado é um ciclo que penaliza diretamente a população civil.

 

Além disso, o impacto sobre a mobilidade urbana compromete perspectivas de longo prazo. Ao dificultar o acesso à educação e a outros serviços básicos, a violência atua como um freio à mobilidade social, perpetuando desigualdades e limitando oportunidades para jovens em territórios vulneráveis.

 

O diagnóstico traçado pelas instituições envolvidas sugere a necessidade de revisão das políticas públicas, com integração entre segurança, transporte e educação. Sem isso, a rotina de interrupções tende a se consolidar como mais um elemento estrutural da desigualdade no Rio — onde o direito de ir e vir, e de estudar, segue condicionado à geografia da violência.



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