Telemetria no campo exige mais que coleta de dados
Por Redação
25/02/2026 às 08:17:28 | | views 26
Com safra recorde e máquinas cada vez mais conectadas, mercado agrícola volta foco para governança, interpretação segura das informações e resposta rápida na semeadura de precisão
Com a estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de uma produção de 353,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, em uma área de 83,9 milhões de hectares, o mercado de máquinas agrícolas opera sob pressão crescente por eficiência, redução de custos e cumprimento de janelas cada vez mais curtas de plantio. Nesse cenário, a agricultura de precisão entra em uma fase mais exigente: o diferencial competitivo deixa de ser a simples coleta de dados e passa a ser a capacidade de transformá-los em decisão técnica segura e em tempo real.
A definição mais recente da International Society of Precision Agriculture (ISPA), revisada em janeiro de 2024, reforça essa mudança de foco. A entidade descreve a agricultura de precisão como uma estratégia de gestão que coleta, processa e analisa dados para apoiar decisões conforme a variabilidade da lavoura. Na prática, isso significa que a geração de informação, isoladamente, não encerra o ciclo produtivo — é a interpretação qualificada que gera resultado.
No mercado brasileiro, fabricantes de plantadeiras e sistemas embarcados vêm ampliando o uso de telemetria para monitorar, em tempo real, indicadores como índice de qualidade de semeadura, população de plantas, ocorrência de falhas e duplas, além do desempenho dos dosadores. A conectividade das máquinas permite que dados operacionais sejam enviados a plataformas digitais, acessadas por produtores e consultores técnicos.
A mudança estrutural está na lógica de uso. O ganho operacional ocorre quando a informação sai do painel da máquina e se converte em ajuste imediato no campo — como correção da velocidade de plantio, redistribuição de sementes ou recalibração da dosagem de fertilizantes. Estudos técnicos da Embrapa indicam, por exemplo, que operar acima da velocidade recomendada pode elevar falhas e comprometer a uniformidade do estande, impactando a produtividade final.
No cenário internacional, o debate é semelhante. Relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), intitulado “Precision Agriculture in the Digital Era”, aponta que a adoção de mapas de produtividade e monitoramento avançou nos últimos anos, mas ressalta que histórico insuficiente ou bases desatualizadas podem levar a decisões equivocadas. A constatação reforça que tecnologia sem governança de dados mantém risco agronômico — e, consequentemente, financeiro.
No Brasil, a escala do setor amplia o impacto desse movimento. O Censo Agro 2017 registrou 1,229 milhão de tratores em operação e avanço significativo da mecanização. No mesmo levantamento, mais de 1,4 milhão de produtores declararam acesso à internet, número que evidencia a base crescente para digitalização no campo. Ainda assim, a conectividade segue como gargalo: dados de 2024 do IBGE indicam que 65,8% dos domicílios rurais têm acesso a rede móvel para internet ou telefonia, índice inferior ao das áreas urbanas.
Do ponto de vista do mercado de segurança e gestão tecnológica, o avanço da telemetria embarcada amplia a necessidade de políticas claras de proteção e governança de dados. Plataformas que centralizam informações operacionais precisam garantir integridade, disponibilidade e confidencialidade das bases, além de mecanismos de controle de acesso e rastreabilidade. Em um ambiente cada vez mais conectado, a superfície de exposição a falhas técnicas, indisponibilidades ou ataques cibernéticos também cresce.
Fabricantes já apontam a próxima etapa desse movimento: integrar automação e inteligência artificial para acelerar a identificação de desvios e sugerir ajustes automáticos durante a operação. A tendência é que algoritmos passem a antecipar riscos operacionais, reduzindo o tempo entre detecção e correção.
Para o produtor, no entanto, a agenda é pragmática. O foco deixa de ser acumular dados e passa a ser garantir qualidade da informação, rapidez na interpretação e disciplina na execução dos ajustes. Em um mercado agrícola cada vez mais pressionado por margem, a segurança — tanto operacional quanto informacional — torna-se parte central da estratégia de produtividade.
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