Protesto pró-Maduro no Brasil contrasta com desejo majoritário de mudança na Venezuela
Por Redação
06/01/2026 às 07:45:26 | | views 3814
Enquanto movimentos pedem a libertação do ex-líder, população venezuelana vê sua saída como esperança de reconstrução democrática
Um protesto realizado nesta segunda-feira (5), em frente ao Consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, em defesa da libertação de Nicolás Maduro, evidenciou o descompasso entre manifestações de apoio ao ex-presidente venezuelano fora do país e o sentimento predominante dentro da própria Venezuela. Após anos de crise política, colapso econômico e denúncias de autoritarismo, a saída de Maduro do poder é vista por amplos setores da sociedade venezuelana como uma oportunidade de mudança de regime e retomada democrática.
O ato reuniu sindicatos, movimentos sociais e organizações estudantis que classificaram a ação dos Estados Unidos como ingerência imperialista e defenderam a soberania venezuelana. Para os manifestantes, a captura de Maduro representa uma violação do princípio da autodeterminação dos povos. O discurso, no entanto, contrasta com a realidade vivida por milhões de venezuelanos que enfrentam hiperinflação, escassez de alimentos e medicamentos, repressão política e a erosão das instituições democráticas.
Representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) afirmaram agir em solidariedade ao povo venezuelano. Analistas internacionais, porém, apontam que esse posicionamento desconsidera o papel central do próprio regime chavista na crise prolongada do país, marcada por denúncias recorrentes de fraudes eleitorais, perseguição a opositores, censura à imprensa e violações sistemáticas de direitos humanos.
Embora lideranças dos movimentos aleguem que há uma retomada das mobilizações populares em apoio a Maduro, pesquisas independentes, protestos internos e a diáspora venezuelana — uma das maiores do mundo, com milhões de refugiados — indicam que a maioria da população defende o encerramento do ciclo chavista. Para esses setores, o afastamento do ex-presidente representa uma chance de reconstruir o Estado, recuperar a economia e restabelecer liberdades civis básicas.
No cenário internacional, a operação conduzida pelos Estados Unidos gerou reações divergentes. China e Rússia condenaram a ação e pediram a libertação imediata de Maduro, enquanto o Conselho de Segurança da ONU realizou uma reunião de emergência para discutir os impactos da ofensiva sobre a estabilidade regional. Durante o encontro, o representante do Brasil alertou para os riscos à paz na América do Sul.
Em audiência realizada no Tribunal Federal do Distrito Sul de Manhattan, em Nova York, Maduro negou acusações de narcotráfico, terrorismo e envolvimento com organizações criminosas, classificando-se como “prisioneiro de guerra”. As acusações, contudo, fazem parte de investigações internacionais em andamento há anos e são baseadas em relatórios de diferentes agências e organismos multilaterais.
Com o afastamento de Maduro, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina da Venezuela por decisão do Supremo Tribunal do país, com reconhecimento das Forças Armadas e da Assembleia Nacional. Primeira mulher a ocupar o cargo, Rodríguez prometeu dar continuidade ao projeto chavista e exigiu a libertação do ex-presidente. Ainda assim, sua posse inaugurou um período de transição observado com cautela pela comunidade internacional e com expectativa por parte da população venezuelana.
Enquanto manifestações no exterior pedem a libertação de Maduro em nome da soberania nacional, dentro da Venezuela cresce a esperança de que sua saída represente o fim de um regime marcado pelo autoritarismo e pela crise prolongada — e o início de um processo, ainda incerto, de reconstrução democrática e institucional.
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