Reforma tributária deve redefinir estratégias de negócios
Por Redação
06/12/2025 às 08:02:10 | | views 4202
Simplificação fiscal promete reduzir distorções, alterar custos operacionais e influenciar decisões de investimento das empresas
A reforma tributária, aprovada em 2023 e atualmente em fase de regulamentação, deve provocar uma reconfiguração profunda no ambiente empresarial brasileiro. Ao unificar tributos sobre consumo e estabelecer regras mais homogêneas entre setores, a mudança tende a modificar a forma como empresas calculam custos, estruturam operações e definem planos de expansão.
Estudos da OCDE apontam que a complexidade do sistema tributário brasileiro figura entre os principais entraves à produtividade. Para a entidade, a multiplicidade de regras, regimes distintos e a cumulatividade criam distorções que encarecem investimentos e reduzem a eficiência da cadeia produtiva. A reforma visa justamente mitigar esses gargalos.
A Emenda Constitucional 132 institui a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que substituirão IPI, PIS, Cofins, ICMS e ISS. O modelo prevê créditos amplos, cobrança no destino e uniformização de normas entre estados e municípios. Nota técnica da Receita Federal publicada em 2024 afirma que um sistema não cumulativo tende a reduzir disputas judiciais e melhorar a alocação de investimentos ao eliminar efeitos em cascata que distorcem preços.
Para Fernanda Spanner, CEO da Spanner Consulting Group e especialista em planejamento tributário, o impacto será estrutural. “O empresário precisará revisar margens, contratos e composição de custos. A lógica de créditos muda completamente, e setores que se organizam para evitar acúmulo tributário terão novos incentivos. Não se trata apenas de trocar códigos fiscais, mas de reorganizar a estratégia”, afirma. Ela observa que empresas com presença nacional devem, desde já, simular cenários de tributação no destino e possíveis redistribuições de carga.
A transição, segundo o Tesouro Nacional, ocorrerá até 2033, período em que antigos e novos tributos coexistirão. Isso exigirá sistemas capazes de operar simultaneamente dois modelos — um dos pontos mais sensíveis da adaptação. A Confederação Nacional do Comércio destaca que setores intensivos em serviços devem acompanhar de perto a definição das alíquotas de referência, que ainda dependem de regulamentação.
Os efeitos também devem alcançar decisões de investimento. Relatório do IBGE sobre produtividade mostra que cadeias longas, comuns na indústria nacional, tendem a ganhar eficiência com o fim da cumulatividade, abrindo espaço para reorganizações logísticas, revisão de centros de distribuição e reposicionamento de operações regionais. “Modelos que se apoiavam em benefícios locais serão reavaliados. Com a cobrança no destino, fatores como mão de obra, infraestrutura e proximidade de mercados ganham relevância na escolha de onde instalar unidades produtivas”, explica Fernanda.
Empresas que atuam no comércio exterior também deverão monitorar a interação das novas regras com regimes especiais e acordos internacionais. A regulamentação definirá tratamentos diferenciados por setor e critérios de compensação de créditos, pontos que podem influenciar decisões estratégicas.
Para especialistas, a reforma representa uma oportunidade para reduzir insegurança jurídica e aproximar o país de modelos tributários adotados por economias desenvolvidas. Mas o resultado, segundo Spanner, dependerá da preparação empresarial. “A simplificação só trará benefícios a quem se organizar desde agora. É essencial mapear impactos, adaptar sistemas de gestão e revisar processos internos. A transição exige planejamento estratégico, não reação de última hora”, afirma.
A expectativa é que o novo sistema traga mais previsibilidade e menor volatilidade tributária, criando um ambiente de negócios mais favorável. Para empresas de todos os portes, o desafio está em entender como as novas regras influenciarão custos, competitividade e oportunidades de expansão. “A reforma representa uma reorganização estrutural. Quem interpretar o cenário com antecedência terá vantagem competitiva quando as novas etapas forem implementadas”, conclui.
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