Indústria cresce, mas recuperação ainda é desigual
Por Redação
17/07/2025 às 07:34:00 | | views 3836
Crescimento do emprego e da produção embala discurso otimista, mas especialistas alertam para fragilidades estruturais
A indústria brasileira abriu 200 mil postos de trabalho com carteira assinada entre janeiro e maio de 2025, segundo dados do IBGE. O número anima o governo federal, que vem destacando o setor como um dos pilares da recuperação econômica. Contudo, por trás do otimismo dos indicadores, analistas e representantes do setor alertam: a retomada ainda é desigual, e os desafios estruturais continuam sendo ignorados.
A alta de 1,8% na produção industrial nos cinco primeiros meses do ano — com crescimento de 3,3% apenas em maio — reforça a percepção de aquecimento. Segmentos como alimentos, máquinas e veículos puxaram a expansão, especialmente em mercados voltados ao consumo interno. A indústria extrativa também contribuiu com avanço de 8,7%. Mas o crescimento está longe de ser homogêneo e ainda depende fortemente de estímulos pontuais e exportações.
Emprego industrial cresce, mas com concentração e baixa qualificação
Embora os dados de emprego formal sejam positivos, especialistas apontam que a maior parte das novas vagas concentra-se em setores de baixa qualificação e rendimento médio. O setor alimentício, por exemplo, lidera a criação de empregos com 22 mil novos postos, mas ainda enfrenta problemas históricos de rotatividade e precarização.
"Não se pode comemorar a geração de empregos sem analisar a qualidade dessas vagas", afirma a economista Laura Rezende, do Instituto de Estudos do Trabalho. “Grande parte dos contratos é temporária ou está vinculada à produção sazonal. O avanço da robotização e a falta de uma política industrial de longo prazo dificultam a estabilidade no setor.”
Indústria 5.0: promessa ou retórica?
Em meio ao cenário de recuperação, o discurso sobre a chegada da Indústria 5.0 ao Brasil tem ganhado força. Essa nova fase, centrada na integração entre humanos e máquinas inteligentes, promete transformar a produção com ganhos de produtividade, sustentabilidade e segurança. Tecnologias como inteligência artificial, 5G e robótica colaborativa já vêm sendo testadas em grandes empresas.
Entretanto, a adesão à Indústria 5.0 ainda é incipiente e fortemente concentrada nas grandes corporações. Pequenas e médias indústrias — que compõem a maior parte do setor produtivo nacional — enfrentam dificuldades de acesso a crédito, qualificação técnica e infraestrutura digital. “Existe um abismo entre o discurso institucional e a realidade da maioria das fábricas brasileiras”, afirma o engenheiro industrial Paulo Mendes.
Política industrial fragmentada e falta de planejamento
Apesar dos bons resultados recentes, a indústria brasileira segue operando sem uma política industrial robusta e articulada. Desde a década de 1980, o setor perdeu participação no PIB, e as tentativas de reindustrialização têm sido pontuais e reativas, em vez de estratégicas.
A aposta na Indústria 5.0, se não vier acompanhada de uma ampla agenda de inclusão tecnológica e apoio às pequenas indústrias, pode aprofundar a desigualdade entre empresas — criando ilhas de modernidade num oceano de estagnação.
Além disso, há dúvidas sobre o quanto o atual modelo está alinhado a metas de sustentabilidade. A promessa de uma indústria mais verde e eficiente esbarra na falta de regulação ambiental, incentivos fiscais desiguais e pressão por produtividade a qualquer custo.
Números positivos e lacunas estruturais
O crescimento do emprego e da produção industrial em 2025 oferece alívio temporário ao setor, mas não resolve entraves históricos. A ausência de uma estratégia nacional clara, a concentração tecnológica e a precarização do trabalho industrial apontam para um futuro incerto. Enquanto isso, a Indústria 5.0 corre o risco de virar mais uma buzzword — bonita no discurso, distante na prática.
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