Vendas no comércio recuam em abril e acendem alerta
Por Redação
12/06/2025 às 10:16:21 | | views 3834
Após três meses de alta, setor registra queda de 0,4%; recuo em segmentos essenciais levanta dúvidas sobre consistência do crescimento
O comércio varejista brasileiro registrou retração de 0,4% em abril, interrompendo uma sequência de três meses consecutivos de crescimento. O dado, divulgado nesta quinta-feira (12) pelo IBGE, expõe um sinal de alerta sobre a estabilidade da retomada do consumo, mesmo diante de um cenário de inflação mais controlada e juros em queda moderada.
A queda, ainda que tecnicamente modesta, atinge setores estratégicos para o consumo das famílias, como supermercados (-0,8%) e combustíveis (-1,7%). A retração em hipermercados, por exemplo, é particularmente preocupante, já que esse segmento responde por cerca de 50% do volume total de vendas no varejo e funciona como termômetro direto da renda disponível da população.
Além disso, o recuo de 1,3% em itens de tecnologia — como equipamentos de informática e comunicação — e a queda de 0,3% em móveis e eletrodomésticos sugerem que o consumo de bens duráveis também enfrenta resistência, refletindo um ambiente de crédito ainda restrito e incertezas sobre o crescimento da economia.
Alta no trimestre não disfarça desaceleração
Embora os números do trimestre (alta de 0,3%) e do acumulado do ano (2,1%) ainda sejam positivos, eles revelam um ritmo de expansão frágil e insuficiente para consolidar uma recuperação robusta do setor. Na comparação com abril de 2024, a alta de 4,8% é inflada por uma base fraca, já que o país enfrentava desaceleração no mesmo período do ano passado.
A aparente "resiliência" de alguns segmentos, como artigos de papelaria (1,6%) e vestuário (0,6%), está longe de compensar a perda de fôlego em setores com maior peso econômico. O leve crescimento na receita nominal (0,1%) também evidencia um cenário de estagnação, especialmente considerando a inflação acumulada do período.
Varejo ampliado cai mais, puxado por veículos
No varejo ampliado — que inclui veículos, peças e material de construção — o recuo foi ainda mais expressivo: -1,9% de março para abril. O setor de veículos, tradicionalmente sensível à variação nos juros e no crédito, sofreu queda de 2,2%, em um novo revés para a indústria automotiva, que já vinha pressionada por estoques elevados e demanda incerta.
Mesmo com crescimento anual de 0,8% e alta de 1% no acumulado do ano, o desempenho do varejo ampliado revela que a retomada do investimento familiar em bens de maior valor continua travada. A queda de 1,4% na receita nominal do segmento reforça essa leitura.
Consumo das famílias ainda fragilizado
Apesar de indicadores pontuais positivos ao longo do ano — como melhora nos índices de emprego formal e programas de transferência de renda —, o consumo das famílias segue pressionado por endividamento elevado, juros ainda altos e incertezas macroeconômicas. A queda nas vendas de abril deve ser interpretada como mais que um ajuste sazonal: ela sugere que o ciclo de crescimento baseado no consumo pode ter atingido um novo platô.
Em um momento em que se discute o papel do consumo na sustentação do PIB, os dados da Pesquisa Mensal do Comércio reforçam a necessidade de atenção à política fiscal e à manutenção do poder de compra da população — especialmente diante da fragilidade estrutural de muitos setores e da persistente desigualdade na distribuição da renda.
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